Os avanços da tecnologia todos os dias nos surpreendem com inovações e recursos, mas no quesito nossa humanidade, ainda temos tabus quando falamos sobre a saúde mental masculina. Existe um estigma imposto pela sociedade em que os homens são “menos homens” por demonstrar o que sentem. A consequência disso é uma condição emocional que se deteriora com o tempo e uma masculinidade tóxica que engessa a expressão amorosa perante a vida.

Hoje, o tema do nosso Blog é: saúde mental dos homens e os tabus e “obrigações” da masculinidade cobrada pela sociedade. Confira! 

Em muitas sociedades, inclusive na que vivemos, o machismo cobra um alto preço e traz impactos muito negativos a todos, homens e mulheres, uma vez que a crença é sempre de que “homem de verdade não chora”, que ser homem é viver forte e bruto como um touro.

Essa é uma imagem distorcida da realidade que favorece a evitação rígida do medo frente ao desconhecido,  gera emoções contidas, que trazem prejuízos ao homem que as carrega e aos outros com quem convive. 

Isso implica inclusive na ocultação de sintomas de problemas graves, como a ansiedade e a tristeza. Nesse momento, muitas vezes, válvulas de escape como o consumo de álcool e outras drogas são ativadas. 

Sabia que segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) a taxa de suicídio é maior no sexo masculino? A média global é de 15 homens para 8 mulheres por 100 mil habitantes. Um dos principais motivos é que eles apresentam grande resistência em buscar ajuda psicológica e conversar sobre os próprios sentimentos, acreditando que a exposição demonstrará algum sinal de fraqueza.

A situação é muito mais grave do que pensamos. Segundo pesquisa realizada pelo instituto britânico de saúde mental Mind, 90% das pessoas que se afastaram do trabalho por motivo de estresse não citaram a real causa como justificativa da ausência. A maioria preferiu se referir a um problema físico, como dor nas costas. 

Levando em consideração que o mercado de trabalho ainda é majoritariamente preenchido por homens, este é mais um reflexo do péssimo “costume” dos homens de esconderem o que sentem por acreditarem que isso é um motivo de vergonha. De acordo com o Pnad (Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar) Contínua e o IBGE (2020), o índice de ocupação dos cargos pelos homens foi estimado em 65%, enquanto o das mulheres ficou em 46,2%.

Ter medo de falar sobre seus sentimentos não é saudável e só fará com que o problema cresça, ficando cada vez mais difícil a superação. 

Sempre que o desconhecido surge, o medo se faz presente e pode vir acompanhado de curiosidade. Esse ciclo adia o confronto de posturas e dificulta a evolução na vivência da masculinidade

“O Silêncio dos Homens”

Para ilustrar e complementar esse nosso tema de hoje, convido a todos a assistirem o documentário “O Silêncio dos Homens”. 

O filme discute masculinidade e o efeito desastroso da opressão emocional. Foi  produzido pelo Papo de Homem, com pesquisa do Instituto PdH e apoio institucional da ONU Mulheres e da Campanha Eles por Elas.

O intuito da obra é refletir sobre como as masculinidades são construídas nos primeiros anos de vida, e reverberam muitas vezes de modelos nocivos que prejudicam não só a autoimagem dos homens, mas também as relações que ele cria.

Ou seja, que tipo de homens formamos quando oferecemos aos meninos uma educação que não ensina a chorar, ser sensível ou demonstrar vulnerabilidades? 

O filme traz depoimentos de homens e profissionais ligados à saúde mental e sociologia, além de dados de uma pesquisa do Consórcio de Informações Sociais (CIS) da USP (Universidade de São Paulo) que ouviu mais de 40 mil pessoas em questões relacionadas à masculinidade.

Nós podemos melhorar essa realidade

Para que esse cenário seja transformado precisamos nos unir e intensificar diálogos transformadores na sociedade. Como fazer isso? Primeiro parando de ignorar os sentimentos do próximo, seja homem ou mulher; e encarar os medos. Compreender que reprimir os sentimentos, meus e do outro, só contribuem mais e mais para o desenvolvimento de comportamentos destrutivos. 

É natural que haja medo frente ao próprio desconhecimento de si, onde as indagações guardadas a sete chaves, acabam por manifestar-se através do estranhamento de posturas que o outro pratica ou mesmo sustentadas por esse homem prisioneiro de regras sociais.

Aqui no consultório recebo homens bastante feridos e declaram-se inaptos para viverem a intimidade relacional seja de casal, fraternal e/ou filial.  Um arsenal de angústia e desamparo  imensos vão surgindo no decorrer das consultas. Exaustão por repetir papéis sociais insanos.

Parte da terapia consiste em construir novas interações sejam elas individual e também familiares,  ao reconhecer que “romper” o silêncio é uma forma de viver uma vida mais plena e que é comum e natural sentir. 

Sempre haverá um hiato no conhecimento de si, somos seres mutantes, a mudança é inerente ao humano. É importante lembrar que as pessoas com as quais se interage também guardam seus mistérios insondáveis.

Portanto, saber que o movimento e mudança nos garante a saúde, e que ao transformar-me o outro naturalmente é impactado, altera a homeostase adoecida da relação.

Ler o mundo das relações como certo e errado é condenar-se à morte em vida. Sempre falo brincando aqui nos atendimentos que as ruas estão cheias de zumbis…rsrs.

O que qualifica as relações consigo e o próximo é o que funciona e acrescenta sentidos de vida.

O convite está feito: venha e participe deste processo de desconstruir a ideia de que os homens não podem demonstrar sentimentos. Afinal, falar é parte do remédio para prevenir adoecimentos mais graves.

Espaço Entre Olhares (031) 98814-7288

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